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02 Outubro 2009

Perguntassem-mo em 1983 e eu seria claro: “Sim.” Perguntassem-mo em 1987 e eu treparias paredes: “Obviamente!” Perguntassem-mo em 1989 ou em 1994, em 1999 ou em 2005 – e, ainda assim, eu pendurar-me-ia no pescoço do Marquês de Pombal, com um archote aceso numa mão e uma garrafa de gasolina presa entre os dentes, prontinho a imolar-me pelo fogo: “Mas é claro que sim! Todos os dias! Cada vez mais! Uma vergonha! Mas será que ninguém mais vê? Como é que é possível? Estes anos todos… Um escândalo!”

Enfim, perguntasse-mo a mim ou a qualquer outro sportinguista do passado ou do presente, em tempos de triunfo ou de desaire, em referência aos seniores, aos juniores ou (até) à equipa de futsal – e nós diríamos sempre que sim. “O Sporting é prejudicado pela arbitragem?” “Mas é claro que é. Mais do que prejudicado: roubado! Mais do que roubado: escandalosamente roubado!” Penáltis sonegados, foras-de-jogo inventados, jogadores erradamente expulsos, golos mal anulados a nós e golos mal validades ao adversário – houve de tudo (e mais alguma coisa) ao longo destes últimos trinta anos.
Não é preciso dar grandes explicações: o ressentimento, já se sabe, é parte da nossa natureza (e não só da nossa, não só da nossa) – e, logo a seguir ao ressentimento para com o Benfica, vem, inevitavelmente, o ressentimento com o árbitro. Portanto, quando Paulo Bento contesta o trabalho de um árbitro – qualquer árbitro em qualquer jogo que o Sporting dispute – nós somos os primeiros a ouvir as campainhas tocar no fundo da memória. Mas é óbvio que Paulo Bento tem razão. É óbvio que o Sporting tem razão. E, se não tem razão agora, fica pelas outras vezes todas que foi roubado sem reparação.
Agora, esta arbitragem em concreto, por favor, não. Nesta semana em particular, por obséquio, não. Ainda aqui há dias o Sporting conseguiu dar uma volta quase impossível ao jogo com o Olhanense por causa de uma grande penalidade que mais ninguém, para além do árbitro, descortinou. E, por muito má que tenha sido a arbitragem de Duarte Gomes no clássico do Dragão (e, de resto, por muito absurda que tenha sido, porque foi, a sua nomeação para o jogo), nenhum dos seus vários erros, individualmente ou em conjunto, se compara ao que acontecera dias antes em nosso benefício.
A única coisa que posso encontrar por detrás do discurso de Paulo Bento, para além da simples revolta pelo desaire, é o início de uma estratégia para corroer o sistema por dentro até que, enfim, o Sporting possa contar com o mesmo tratamento que os árbitros dispensam aos principais adversários. Foi isso que fizeram Roquette e Dias da Cunha, de resto ambos eventualmente campeões – e talvez insistir na guerra à arbitragem efectivamente volte a pôr em sentido quem se ocupa do apito (e, de resto, dos homens do apito).
Para já, porém, a verdade é esta: ninguém nos respeita. É a melhor prova do quanto nos deixámos fragilizar com este discurso dos pobrezinhos impotentes. E, portanto, aconselha-se contenção: desta vez, e pelo menos no que diz respeito aos 90 minutos do Dragão, Duarte Gomes é inocente de mais para diabolizar com um mínimo de credibilidade.

CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 2 de Outubro de 2009

publicado por JN às 22:36

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Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003), “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004), "Todos Nascemos Benfiquistas – Mas Depois Alguns Crescem" (crónicas, 2007) e "Crónica de Ouro do Futebol Português" (obra colectiva, 2008). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado na imprensa escrita, na televisão e na rádio, como repórter, cronista, comentador, apresentador e autor de conteúdos. (saber mais)
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