Aquilo que José Eduardo Bettencourt ainda não percebeu é que é já, por esta altura, o pior presidente da história contemporânea do Sporting. Nunca alguém cometeu tantos erros em tão pouco tempo: nunca alguém foi tão rápido a mergulhar o Sporting no lodo – e tão eficaz, depois, a segurar-lhe a cabeça no fundo, na expectativa de que deixe, enfim, de respirar.
Curiosamente os jogadores assumem que são culpados. Paulo Bento também assume que é culpado, embora peça que “outros” admitam igualmente as suas responsabilidades. O presidente, esse, não tem culpa nenhuma.
E não tem culpa nenhuma, pensa ele, porque não fez nada. Pois está certo nisso: não fez nada. Por outro lado, é precisamente por isso que é o principal culpado: porque não fez nada – e porque continua, todos os dias, a não fazer nada. Repito: o principal culpado – não José Roquette, não Dias da Cunha, não Filipe Soares Franco, mas sim o próprio José Eduardo Bettencourt.
O processo eleitoral foi mal gerido, sim. As eleições caíram em cima da nova época – já não havia tempo para mudar tudo e começar de novo. Escudado nessa ideia, porém, Bettencourt não mudou nada. Tinha uma oportunidade de ouro: podia ter contratado um treinador com um mínimo de condições e anunciado que se iriam viver novos tempos, com nova filosofia (e que, portanto, esta época seria de transição).
Não o fez. Manteve em absoluto a filosofia que já tão maus resultados dera – e, afinal, a época está a ser transição na mesma, mas para fora do lote dos clubes grandes. Isto em cinco meses apenas. Nem Jorge Gonçalves, nem Sousa Cintra (nem sequer, antes deles, João Rocha ou Amado de Freitas): ninguém fora tão longe. Ninguém conseguira antes excluir tão clara e rapidamente o Sporting da disputa com o FC Porto e o Benfica.
Senhor presidente, pede-lho um ignorante (eu, um tipo que até para preencher o IRS precisa de ajuda e que, portanto, não percebe nada de gestão nem de acções nem de valores mobiliários obrigatoriamente convertíveis): tenha a coragem de dizer aos sócios do Sporting que o verdadeiro lugar deste clube centenário, para si, é entre os candidatos à Liga Europa.
A não ser que o senhor nem sequer o tenha percebido ainda. Não me admira: desde o início que um ignorante como eu, analfabeto em matérias de gestão (mas não em matérias de natureza humana, senhor presidente, não em matérias de natureza humana), vem percebendo muito antes de si o que se vai passar a seguir (basta ir às crónicas que aqui venho publicando desde Maio).
Portanto, diz-lho este ignorante: é esse o caminho em que seguimos. E, entretanto, pede-lhe também: assuma que se enganou neste novo projecto de vida, peça humildemente desculpa e saia de mansinho, que por enquanto ainda o aceitam de volta na banca. E, se não quiser pedir desculpa (que diabo, mesmo que não queira dizer nada), saia na mesma.
Se sair agora, os sportinguistas hão-de esquecer-se de si, mais cedo ou mais tarde. Se não, hão-de recordá-lo como uma espécie de sétima praga do Apocalipse: aquela que finaliza o trabalho – que acaba de vez com o pouco que resta de colheitas e de água, de esperança e de vida. E essa recordação, sim, durará “forever”.
CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 30 de Outubro de 2009
Leio nos jornais que Izmailov está determinado a abdicar (ou deverei dizer “adicar”?) dos ordenados enquanto não estiver refeito da respectiva lesão – e de novo lamento o estado a que estamos a chegar.
Isto está tudo trocado. Quem percorre os jornais, as televisões e as rádios, lendo e ouvindo as declarações épicas de José Eduardo Bettencourt e dos seus próximos, fica com a sensação de que o presidente do Sporting conseguiu uma vitória enorme ao fazer aprovar, finalmente, o seu (seu e não só) plano para a reestruturação financeira do clube. Peço desculpa: não foi isso que aconteceu. O que José Eduardo Bettencourt recebeu não foi uma vitória: foi um ultimato – e é tão importante que ele saiba o que recebeu como que os sócios do Sporting saibam a verdadeira natureza daquilo que lhe deram.
É curiosa, a forma como as coisas se passam hoje em dia no Sporting. Medíocre na Europa, a equipa de Paulo Bento está quase definitivamente enterrada (à sétima jornada, note-se) em Portugal. Antigamente, naqueles 17 anos de sufoco e tristeza, ainda chegávamos ao Natal. Agora nem isso. E, no entanto, aí anda José Eduardo Bettencourt, pelos jornais fora, dando o rosto ou falando por intermédio de “fontes próximas”: primeiro um momento de contrição (talvez o plantel não seja o ideal, coisa que de facto toda a gente já havia dito em Junho, mas no caso de forma claramente mal-intencionada), depois um momento de determinação (Paulo Bento é o treinador deste presidente, que há-de estar com ele “até ao fim”, apesar de não se sentir refém da palavra “forever”, proferida “em contexto eleitoral”), finalmente um momento de diversão, este em jeito de manobra (já agora, é interessante dar uma olhadela a esse absurdo fundo de investimento em que o Benfica está a basear a sua temporada).
Perguntassem-mo em 1983 e eu seria claro: “Sim.” Perguntassem-mo em 1987 e eu treparias paredes: “Obviamente!” Perguntassem-mo em 1989 ou em 1994, em 1999 ou em 2005 – e, ainda assim, eu pendurar-me-ia no pescoço do Marquês de Pombal, com um archote aceso numa mão e uma garrafa de gasolina presa entre os dentes, prontinho a imolar-me pelo fogo: “Mas é claro que sim! Todos os dias! Cada vez mais! Uma vergonha! Mas será que ninguém mais vê? Como é que é possível? Estes anos todos… Um escândalo!”

