Diz Paulo Bento que a eliminação perante a Fiorentina, tendo em conta nomeadamente as tropelias do árbitro do jogo da primeira mão, é “uma coisa que dói”. Verdade. Diz Miguel Veloso que os jogadores do Sporting “fizeram tudo para chegar à Champions League”. Verdade também. “Diz Rui Patrício que, tendo em conta a forma como as coisas correram, o mínimo que o Sporting pode impor-se como objectivo, agora, é ganhar a Liga Europa. Verdade, verdade, verdade.
E, no entanto, não há sportinguista que, no meio do actual turbilhão de lamentos e de protestos e de suspiros de auto-justificação, não seja assaltado pela impressão de que o Sporting jogou contra a Fiorentina exactamente aquilo que a Fiorentina deixou que o Sporting jogasse. De que a Fiorentina nunca jogou mais do que o rigorosamente necessário para ultrapassar o Sporting. De que a eliminatória nunca esteve em causa – e de que, de resto, sempre que a eliminatória pareceu estar em causa, bastou à Fiorentina acelerar um nadinha para resolver o problema em cinco minutos.
No essencial, o balanço é este: o Sporting fez o sexto jogo consecutivo nas competições europeias sem ganhar; o Sporting está fora da Liga dos Campeões e já cinco pontos atrasado em relação ao líder no campeonato nacional; e o Sporting ainda não ganhou um jogo que fosse este ano (a não ser um particular com o Atlético do Cacém que nos fica mais mal recordar do que ignorar). Isso, sim, é verdade, verdade, verdade – e isso não há elogios do treinador da Fiorentina, euforias dos relatores da rádio ou justificações dos comentadores da televisão que consigam escamotear.
E a razão por que isto acontece é a mais clássica de todas: o Sporting não tem jogadores. No banco, não há alternativas; em campo, não há soluções. Do actual onze do Sporting, apenas dois ou três jogadores têm efectivamente condições para vestir semanalmente uma camisola daquela dimensão: João Moutinho (que, aliás, sempre esteve um tanto sobreavaliado), Matias Fernández (e só a espaços, para já) e Liedson (embora, desde que é português, esteja “demasiado” português). De resto, há umas esperanças: Rui Patrício, Daniel Carriço, Miguel Veloso, Adriem. E, tirando os dois lesionados recorrentes (Vukcevic e Izmailov), não há mais nada.
É curto. Curtíssimo – e, se pode chegar para dois jogos razoáveis contra a Fiorentina, embora com o adversário a controlar as coisas à distância, não chegará nunca para um campeonato nacional. Enfim, pode ser que se alinhem persistentemente os astros nas eliminatórias da Taça de Portugal e/ou da Taça da Liga. Por outro lado, o problema é que, se ganharmos uma taça, qualquer que ela seja, já temos desculpa para perder mais dois ou três campeonatos.
Para José Eduardo Bettencourt, isto chega. Para Paulo Bento e Pedro Barbosa, também. Para mim, não.
CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 28 de Agosto de 2009
Esta semana estamos em lua de mel com o Sporting – e, até certo ponto, há razões para isso. Tirando o absurdo do gesto individual de Vukcevic, cujo talento excede amplamente a inteligência, o Sporting jogou bem contra a Fiorentina. Mostrou um desejo que há muito não se lhe via, provou que também é capaz de contratar bons jogadores (Matias Fernández deve ser a melhor contratação desde Liedson) e, no fim, apenas empatou porque foi clara, desgraçada e persistentemente prejudicado pelo árbitro, que o perseguiu do primeiro ao último minuto com más decisões técnicas, péssimas decisões disciplinares e uma terrível gestão do relógio.
O FC Porto e o Benfica estão muito mais fortes do que o Sporting, e eu posso dizê-lo à vontade. O presidente do Sporting não pode. Se o fez porque efectivamente acredita que o Sporting é de longe o mais frágil dos três supostos candidatos ao título, é mau sinal: significa que o plantel está suficientemente fraco para que o argumento colha. Se o fez para retirar pressão sobre a equipa, é pior ainda: significa que ainda não percebeu que, se há uma coisa de que Paulo Bento e os seus jogadores bem precisam, é de alguma pressão.
Quatro anos de pancada nos responsáveis do Sporting, incluindo Soares Franco e Paulo Bento, deixaram-me com medo de morder a própria língua. De maneira que foi de coração aberto que rumei na semana passada a Alvalade, para assistir ao Sporting-Twente. Sim: eu sabia que o miserabilismo das épocas anteriores se mantivera durante a elaboração do plantel para a nova temporada. Sim: eu já percebera que isso de José Eduardo Bettencourt ter começado a apelar à emoção representava apenas uma mudança de discurso, não de políticas. Sim: eu não tinha qualquer ilusão quanto à possibilidade de um grupo de jogadores que há dois ou três anos se vinha mostrando desprovido de génio e de força ter, entretanto, engolido a poção mágica de Astérix. Mas esperava, pelo menos, alguma ambição. Alguma vontade, algum empenho – algum, vá lá, do sonho cultivado pelos sócios que se deixaram encantar com a nova linguagem oficial. E não o encontrei.

