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03 Setembro 2010

1. Por esta altura, já não me interessam as verdadeiras razões por que Carlos Queiroz venha a deixar o cargo de seleccionador nacional. Quero vê-lo pelas costas – e quero vê-lo pelas costas o mais depressa possível. Escrevi aqui, na altura da sua contratação, que a solução não servia – e que, aliás, contratá-lo por quatro anos era duplicar o absurdo. O tempo deu-me razão, mas apenas em parte. Queiroz foi muito pior do que alguém  alguma vez podia ter imaginado. Não conseguiu fazer a transição de gerações, não conseguiu mobilizar os portugueses e não conseguiu apresentar resultados. Não conseguiu evitar o alargamento do contingente estrangeiro do plantel, não conseguiu conter o abandono da selecção por parte de jogadores fulcrais e nem sequer vai conseguir sair com um mínimo de dignidade. Pelo contrário, deixará atrás de si pouco menos do que um faroeste – e, a não ser que as mudanças sejam rápidas e draconianas, com a colocação no cargo de seleccionador de um implacável ditador, podemos desde já considerar o Europeu de 2012 outro fracasso. As responsabilidades vão direitinhas para Gilberto Madaíl, naturalmente. Por falar nisso: o que pensa ele disto tudo? O que pensa disto a direcção da Federação Portuguesa de Futebol?

 

2. Apesar de Queiroz, não deixa de constranger-me o abandono da selecção por parte de Deco, Simão Sabrosa e Paulo Ferreira. Deco é um caso especial: o que restará de “portugalidade” nele, agora que está de regresso ao Brasil e sem ligações à selecção? Simão e Paulo Ferreira já são semelhantes: exerceram o seu legítimo direito a fazer apenas o que bem entendem, mas levam-nos igualmente a crer, ao abandonarem o barco num momento especialmente difícil, que a sua dedicação à causa nunca foi grande coisa. O que nem sequer é exclusivo deles, diga-se: por toda a Europa há jogadores a darem por concluídas as carreiras na respectivas selecções. Pois eu gostava que pusessem, todos eles, os olhos no golfe e nas selecções europeia e norte-americana para a Ryder Cup. Centenas e centenas de jogadores digladiaram-se, durante dois longos anos, por um dos 24 lugares disponíveis na 38ª edição da prova, marcada para Outubro. E, no entanto, os prémios de jogo não serão apenas mais baixos do que aqueles a que eles estão habituados nas suas rotinas semanais: são simplesmente inexistentes. Ali, joga-se apenas pelo prestígio e pela honra – e esse é o momento mais alto de uma vida. Sabendo talvez os futebolistas o que é o prestígio, saberão também o que é a honra?

CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 3 de Setembro de 2010

publicado por JN às 23:26

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003), “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004), "Todos Nascemos Benfiquistas – Mas Depois Alguns Crescem" (crónicas, 2007) e "Crónica de Ouro do Futebol Português" (obra colectiva, 2008). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado na imprensa escrita, na televisão e na rádio, como repórter, cronista, comentador, apresentador e autor de conteúdos. (saber mais)
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