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20 Agosto 2010

Pouco minutos antes de o Sporting tombar perante o Paços de Ferreira, estava eu a chegar da loja onde fora comprar o equipamento leonino para o meu afilhado. Vinha delirante, decidido a promover o nascimento de um novo sportinguista – e, inevitavelmente, hesitei. Se tantas e tantas crianças da minha geração escolheram o clube apenas porque o seu primeiro fato-de-treino era verde ou a sua primeira mochila dizia “Sport”, então um equipamento completo, com aquelas meiinhas  adoráveis e aqueles calções pequeninos e aquelas letras garrafais a dizer “Super Bock” nas costas da camisola rapidamente se lhe colariam à pele como uma segunda identidade – e essa identidade, como acabava de mostrar-me aquele malfadado jogo da Mata Real, não era propriamente um sucesso.

Para que se perceba o trabalho que tenho pela frente, devo dizer três coisas: o Louis é francês, vive em Paris e, tanto quanto sei, não tem, em toda a extensíssima família (nem do lado do pai, nem do lado da mãe), uma só alma sobre a qual o maravilhoso jogo da bola exerça um mínimo de fascínio. No momento em que abriu o presente, fez um ar desgostoso e perguntou-me, no seu ar de menino educado mas nem por isso exultante: “Devo vesti-lo?” – e mais tarde, cautelosamente, ainda encontrou maneira de inquirir: “E aquele outro presente que tinhas ali, para quem é?” Depois, porém, como que desabrochou. Há alguma coisa numa bola que ilumina uma criança – e, quando começámos a trocar o esférico sobre a relva, não foi difícil perceber que ele ganhava intimidade com ela a cada instante que passava, apesar de nunca, até então, tal jogo o ter seduzido.

Não me surpreendeu: o Louis, como os irmãos mais velhos (e um dia, provavelmente, o mais novo também), é tudo aquilo que sonhamos quando sonhamos com um filho. É assertivo, afectuoso e bonito, para além de educado (por favor, educado sempre, educado sempre) – e, se em vez de uma bola eu lhe tivesse dado uma equação matemática, o mais provável é que, mais tarde ou mais cedo, viesse a resolvê-la. Quando um dia vier para Portugal, vou levá-lo ao cinema e a jogar golfe, a comprar livros e, naturalmente, a ver o Sporting também. Está marcado para sempre – e, se um dia decidisse ser de outro clube que não o Sporting, não apenas me partiria o coração a mim, mas trairia toda a natureza humana.

Pensando bem, oxalá mude para outro clube qualquer: esta natureza é do pior – ser capaz de suplantá-la só pode ser bom sinal. Mas, se não mudar, lá estaremos os dois juntos, chorando derrotas. O Sporting será como que o seu criado de quarto – aquele que, apesar das glórias pessoais, lhe lembrará diariamente, pela manhã: “És estúpido. Podes estar no topo do mundo, que não deixarás de ser como todos os homens: um estúpido.” O Louis é um vencedor. Os vencedores precisam do Sporting.

CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 20 de Agosto de 2010

publicado por JN às 17:53

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Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003), “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004), "Todos Nascemos Benfiquistas – Mas Depois Alguns Crescem" (crónicas, 2007) e "Crónica de Ouro do Futebol Português" (obra colectiva, 2008). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado na imprensa escrita, na televisão e na rádio, como repórter, cronista, comentador, apresentador e autor de conteúdos. (saber mais)
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