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30 Julho 2010

Disse-o logo de início – e não é para fugir ao clássico “Eu não vos disse?” que vou deixar de dizê-lo agora também. Carlos Queiroz anda há vinte anos (repito: vinte anos) a vender as duas vitórias no Campeonato do Mundo de Sub-20. Nunca mais, desde então, acertou como treinador principal, nem em clubes, nem em selecções, nem na Europa, nem em África, nem na Ásia, nem na América – e a sua contratação para o cargo de seleccionador nacional foi um erro.

Se Gilberto Madaíl, a quem devemos tanto, sentiu que se tornara “obrigatório” dar-lhe essa oportunidade, vistos os bons serviços como adjunto de Alex Ferguson, devia ter feito com ele um contrato de dois anos. A experiência correria sempre mal: Queiroz, inevitavelmente, falharia. Mas ao menos lixava-nos um ciclo apenas. Contratos de quatro anos é coisa de América do Sul, onde a Copa América é secundária e só o Mundial interessa.

O destempero do seleccionador a propósito do controlo anti-doping do dia 16 de Maio é grave – e é provável que, representando ou não justa causa para despedimento, seja razão mais do que suficiente para despedi-lo. Mas dá muito jeito a toda a gente, por esta altura, que ele tenha ocorrido, permitindo à FPF corrigir o erro histórico que foi a assinatura de um contrato de quatro anos com um notório incompetente.

Que Queiroz devia ir à sua vida, ninguém tem dúvidas. Mas que esta rescisão “amigável” agora a desenhar-se no horizonte parece oportunismo, lá isso parece. E, nesse contexto, o mais irónico é que o ónus nem sequer recai apenas sobre Gilberto Madaíl, o autor do erro original: recai também sobre Laurentino Dias, que, não estando a fazer mais do que a sua obrigação (é ele quem tutela a Autoridade Antidopagem de Portugal), deixa que passe a ideia de estar a fazer o jeito a um parceiro antigo.

Não está. Todas as responsabilidades, neste processo, continuam a pertencer a Carlos Queiroz, autor de uma gritaria de andaime absurda, e à Federação, que não só o presenteou com um contrato demasiado longo como, depois, não soube agir no momento certo. Porque, se é de coerência que falamos, e mesmo estando então a escassos dias da partida para a África do Sul, Queiroz deveria ter sido suspenso de funções no próprio dia 16 de Maio.

Haveria comoção, naturalmente. Mas, para além ser fácil arranjar um treinador para um mês de “salvação nacional” (até Mourinho, porque não?), os jogadores teriam adorado a solução – e quem sabe não seria exactamente essa comoção a lançá-los para um percurso um nadinha mais colorido do que aquele que fizeram.

CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 30 de Julho de 2010

publicado por JN às 16:10

23 Julho 2010

É uma sensação quase desconcertante. Na altura em que escrevo, são já 10:28 – e Jara ainda não fez um passe de génio, um golo maravilhoso, um fintazinha inesquecível que se seja. Pelos vistos, ainda não começou o treino do Benfica. O que tem uma grande vantagem, claro: sendo assim, Roberto também ainda não enfiou qualquer frango. Mas não vale a pena desesperar. Daqui a instantes Jorge Jesus já há-de estar a orientar mais um treino dos cavaleiros da Távola Redonda – e não tarda havemos de ter a SIC Notícias e a RTPN, as rádios e os sites, o vizinho de baixo e o senhor do quiosque aos berros, que o Messias tornou a reencarnar, que está aí a Nova Jerusalém e que os tais 144 mil, afinal, são seis milhões inteirinhos (o que, aliás, já era previsível, tão cheio de linguagem figurada anda o Apocalipse).

Por mim, não sinto outra coisa senão inveja. Embora tenha a impressão de que, se a glória do Benfica está de facto prevista nas profecias, é no capítulo sobre as sete últimas pragas antes da queda da Babilónia, invejo sem reservas esta euforia que inunda os corações inimigos do primeiro ao último minuto, assim que começa a temporada e muito depois já de nada haver a fazer pela conquista do campeonato, pela vitória na Taça de Portugal, pela chegada à final da Liga dos Campeões. Há entre os benfiquistas uma alegria sempre tonta – os comunistas usariam palavras como “alienação” e “ópio do povo”, mas eu, já se sabe, sou tão anticomunista quanto um homem pode ser –, e um sentimento dessa natureza, expondo-nos a tantos males, não deixa de ser reconfortante. Do lado de cá da Segunda Circular,  como de costume, não há nada disso.

Do lado de cá da Segunda Circular há agora um plantel mais equilibrado e um treinador que ainda não se conformou com ele. Só isso já é novidade: por esta altura, já Paulo Bento teria tranquilizado os sócios de que Diogo Salomão e André Martins eram suficientes, sendo pois um desperdício ter ido contratar Torsiglieri, Evandro ou Valdés. Mais: José Eduardo Bettencourt tem estado caladinho, o que não deixa de ter o seu mistério. Por outro lado, Costinha não deixará nunca de ser Costinha, Rui Patrício não deixará nunca de ser frangueiro e Yannick não deixará nunca de pedir para ir para o Real Madrid, agora que Luciana já redecorou a vivenda e quer começar a ver cumprida a promessa de, não tendo conseguido casar com o Cristiano Ronaldo branco, ter efectivamente casado com o Cristiano Ronaldo negro.

Basicamente, estamos na mesma. Ou quase. Ainda temos Paulo Sérgio…

CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 23 de Julho de 2010


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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003), “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004), "Todos Nascemos Benfiquistas – Mas Depois Alguns Crescem" (crónicas, 2007) e "Crónica de Ouro do Futebol Português" (obra colectiva, 2008). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado na imprensa escrita, na televisão e na rádio, como repórter, cronista, comentador, apresentador e autor de conteúdos. (saber mais)
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