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09 Abril 2010

A primeira vez que me confrontei com as razões por detrás do rompimento entre André Villas Boas e o Sporting – a chamada gota de água terá sido a contratação de Nuno Dias, sem a anuência do treinador, para o departamento de comunicação do clube – suspirei como suspiram as damas traídas após a primeira traição: “Olhem-me o fedelho! Mas quem é que ele pensa que é?!” Agora, mais a frio, não tenho apenas pena de que o acordo tenha sido desfeito, mas também a certeza de que Villas Boas, sendo ou não o homem ideal, sabia qual o único caminho para a regeneração do Sporting.

Não vou cansar-me de dizê-lo: o treinador é – o treinador tem de ser – a figura mais importante de um clube de futebol. O único clube de futebol vencedor que não gravita em torno do seu treinador é o FC Porto. Mas mesmo o FC Porto já gravitou em torno do seu treinador, nomeadamente quanto Pinto da Costa percebeu que estava há três anos sem ganhar o campeonato e precisava urgentemente de render-se ao élan e à determinação de José Mourinho, sob pena de permitir a eternização daquela que era já a fase mais difícil da história do clube desde que ele próprio, Pinto da Costa, chegara à presidência.

Não, o Sporting não podia ter contratado um director de comunicação sem a aprovação do novo treinador. Independentemente dos méritos e das limitações de Nuno Dias, que foi um excelente profissional da imprensa, é fundamental que o futuro do clube seja gerido como um todo coerente, sem pontas soltas – e é fundamental também que todo esse projecto seja liderado pelo treinador, quem quer que ele seja. O problema, claro, é agora encontrar agora alguém com a paciência e a energia para remodelar todo o edifício em tempo recorde. Ainda por cima com a tarefa inicial de lidar com Costinha, cujos poderes parece saírem reforçados a cada trapalhada.

 

O Benfica-Sporting é o que nos resta de 2009-2010. Por esta altura, já não há-de haver um só sportinguista esperançado em estragar a festa do título ao rival, sonho a que a certa altura se reduziram as nossas expectativas para esta temporada. Mas o derby permanece o jogo mais mágico do futebol português – e vencê-lo não deixaria de trazer um nadinha de alegria à recta final daquela que, temo-o bem, foi a mais desesperante temporada da história deste clube centenário.

Quanto ao resto, apenas podemos pedir que o Benfica perca em Coimbra e nas Antas, que empate com o Olhanense e com o Rio Ave – e que, no fim, como diz aquele grupo do Facebook, nós possamos efectivamente “rir-nos tanto se o glorioso Benfica não ganhar” o campeonato. À cautela, porém, aconselho a reserva imediata de uma escapadinha de Primavera. Consta que a Papuásia-Nova Guiné exibe agora as mais belas paisagens outonais, com lindíssimos contrastes de luz e de cor e, nas zonas mais rurais, as dificuldades de sempre no acesso à rede de telemóvel, à Internet e mesmo à televisão por antena.

 

O duelo entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo pelo estatuto de melhor futebolista de uma geração começa a tornar-se numa das grandes expectativas para o Mundial da África do Sul. Até porque nenhum deles tem propriamente uma tradição de jogar bem na selecção e, de alguma maneira, a diferença estará no grau de superação de cada um deles em relação ao cinzentismo costumeiro.

Torço por Ronaldo, naturalmente. Mas estou solidário com Messi. Nem quero imaginar o que os argentinos lhe farão à pele se não arrancar um Mundial pelo menos sublime…

CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 9 de Abril de 2010

publicado por JN às 12:59

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003), “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004), "Todos Nascemos Benfiquistas – Mas Depois Alguns Crescem" (crónicas, 2007) e "Crónica de Ouro do Futebol Português" (obra colectiva, 2008). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado na imprensa escrita, na televisão e na rádio, como repórter, cronista, comentador, apresentador e autor de conteúdos. (saber mais)
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